Digamos que sua fase inaugural é no século 14. De lá até o século 19 ocorre um estágio artesanal e aristocrática. Antes disso há uma história do vestuário nas sociedades primitivas, da Antiguidade e da Idade Média, baseada numa visão conservadora de reprodução e respeito ao passado. Durante séculos, os trajes permaneceram praticamente imutáveis e foi somente com o aparecimento de uma lógica estética autônoma, na vontade do individuo se diferenciar dos demais que a metade do século 14 transformou principalmente a alta sociedade da época a ser tomando de um desejo de novidades, com a possibilidade de exercer o individualismo. Naquele momento houve uma revolução no vestuário, nascia então o que hoje chamamos de moda, tendo trajes nitidamente diferenciados para homens e mulheres.
Bom, daí com o crescimento da burguesia ocorre também uma expansão da moda. Ao longo dos séculos 16 e 17, os trajes que eram exclusivos das classes nobres passaram também a ser os dos novos ricos, oriundos das atividades bancárias e do comércio. No século 18, a média e a pequena burguesia urbana também começaram a poder seguir a moda, ainda que sem o mesmo luxo e a ostentação da aristocracia, mas já era possível desfrutar de uma certa liberdade individual estética que no início se restringia aos monarcas e agora já alcançava classes sociais intermediárias.
Nessa transformação que possibilitou o surgimento da moda contribuíram, além das questões sociais, as condições econômicas e históricas na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. O crescimento econômico, motivado pelo comércio e trocas internacionais, o renascimento urbano e o desenvolvimento das manufaturas e das fábricas de tecidos e o início da formação dos estados nacionais, possibilitaram às nobrezas e à burguesia em ascensão dedicarem mais tempo para desfrutar do desenvolvimento material e dos prazeres mundanos.
Mas é a partir do final do século 19 e durante o século 20 que a moda se estabelece como a concebemos atualmente. O gosto e o desejo pelo novo ganharam novas dimensões, tornaram-se mais intensos e freqüentes, e o acesso à moda chegou às classes mais baixas. É nesse momento que surgem a Alta Costura e a confecção industrial. Apesar de dominantes, esses dois modos de fazer moda convivem ainda com as pequenas confecções e com as pessoas que preferem produzir suas próprias roupas.
A Alta Costura é composta por criações de luxo feitas sob medida. Cabe a ela inovar e lançar as tendências da moda para as próximas estações. Já à confecção industrial cabe normalmente reproduzir essas tendências em peças com qualidade muito inferior, mas com preços acessíveis às diferentes camadas sociais.
O marco do surgimento da Alta Costura é a abertura entre 1857 e 1858 em Paris, no ateliê de costura de Charles-Frédéric Worth, em plena Revolução Industrial, ele inovou ao desenvolver modelos inéditos e sob medidas para suas clientes. Além disso, as peças eram apresentadas por mulheres jovens que as desfilavam pela loja. Worth fundou com sua iniciativa um modelo de negócios que estabeleceu as diretrizes da Alta Costura: criações exclusivas, lançamento de tendências, elevação do costureiro à condição de artista e a promoção de espetáculos publicitários sazonais baseados em grifes e modelos (manequins vivos).
Desde então, a Alta Costura projetou nomes de criadores que viraram sinônimo de sofisticação e bom gosto. Roupas, sapatos, bolsas, óculos, cintos, perfumes e cosméticos que levem a assinatura de costureiros como Giorgio Armani, Coco Chanel, Yves Saint Laurent, Emanuel Ungaro, Givenchy, Jean-Paul Gaultier, Dolce e Gabbana, Karl Lagerfeld, Christian Dior e Donatella Versace, entre outros, são objetos de desejo ao redor do mundo.
Mas esse fenômeno é fruto essencialmente também da adesão das casas da Alta Costura a um novo modo de fazer moda que surge em 1949, o prêt-à-porter (que significa algo como “pronto para usar”). A idéia de produzir industrialmente roupas com um acabamento superior e que seguissem as tendências da moda, mas que fossem economicamente acessíveis, norteou o surgimento do prêt-à-porter. Após os primeiros anos quando procurou apenas imitar os padrões da Alta Costura, o prêt-à-porter deu uma guinada nos anos 60 e começou a oferecer um conceito de moda voltado à juventude e à audácia. O surgimento da cultura jovem a partir dos anos 50 e da elevação do adolescente à condição de consumidor foram elementos fundamentais para a renovação que o prêt-à-porter provocou no mundo da moda. O primeiro costureiro da Alta Costura a aderir ao estilo prêt-à-porter foi Pierre Cardin em 1959.
Desde então, as últimas décadas têm mostrado o surgimento de múltiplos focos criativos do modo de se fazer moda, com o rompimento da homogeneidade de padrões e o predomínio de uma tolerância coletiva em termos de vestuários.
Mesmo com essa “democratização” da moda, prevalece ainda nas sociedades urbanas e ocidentais o desejo por roupas e acessórios de grifes como forma de distinção e até mesmo aceitação social. Paradoxalmente, o desejo de se individualizar a partir da aparência caminha lado a lado com o de se identificar com o seu grupo social, sua “tribo”, também através da aparência, o que leva a uma homogeneidade de estilos ditada pelas múltiplas modas.
Na avaliação de Gilles Lipovetsky (um estudioso do assunto e filósofo francês) a moda une o conformismo e o individualismo desde o seu começo. Para ele, a evolução da moda não levou a uma explosão de originalidade individualista, mas a uma neutralização progressiva do desejo de distinção no vestuário. Mas, ressalta que por outro lado o individualismo no vestuário aumentou notavelmente, pois atualmente nos vestimos mais em função de nossos gostos do que por conta de uma norma imperativa e uniforme. Por tanto, moda é a gente quem faz e usa quem quer!
Mais sobre Gilles Lipovetsky: já afirmava que: o assunto “moda" não provoca
entusiasmo na esfera intelectual, pois a moda é celebrada no museu, nas ruas, na
indústria e na mídia, e quase não aparece no questionamento teórico das cabeças
pensantes.
Editoras de livro publicam anualmente diversos materiais sobre moda, mas ao
estabelecer a classificação quanto ao tipo de sessão ou a área de conhecimento, acabam
se equivocando ou entrando em contradição. Uma observação superficial já possibilita
perceber que é comum a relação feita entre moda e futilidades.
Para quem se interessou nesta analise de moda como fenômeno social, suas metamorfoses e conceitos, indico o livro O Império do Efêmero do Gilles. Inicialmente, aborda a emergência da moda no final da Idade Média, assim como as linhas principais de sua evolução a longo prazo.
Outro livro que acho altos massa é o O Design do Século, do escritor Michael Tambini, que traz um apanhado geral da evolução do design durante o século 20. A parte sobre moda mostra as principais mudanças nas roupas femininas, masculinas e infantis, além de chapéus e sapatos. Para quem gosta de perceber as mudanças entre os séculos e ver que a moda caminha e colabora com a mudança dos tempos é um ótimo livro, alem de que, esses livros são muito inspiradores.
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